Era o êxodo da seca de 1898. Uma ressurreição de
cemitérios antigos — esqueletos redivivos, com o aspecto
terroso e o fedor das covas podres.
Os fantasmas estropiados como que iam dançando,
de tão trôpegos e trêmulos, num passo arrastado de
quem leva as pernas, em vez de ser levado por elas.
Andavam devagar, olhando para trás, como quem
quer voltar. Não tinham pressa em chegar, porque não
sabiam aonde iam. Expulsos de seu paraíso por espadas
de fogo, iam, ao acaso, em descaminhos, no arrastão dos
maus fados.
Fugiam do sol e o sol guiava-os nesse forçado
nomadismo.
Adelgaçados na magreira cômica, cresciam, como se
o vento os levantasse. E os braços afinados desciam-lhes
aos joelhos, de mãos abanando.
Vinham escoteiros. Menos os hidrópicos — de ascite
consecutiva à alimentação tóxica — com os fardos das
barrigas alarmantes.
Não tinham sexo, nem idade, nem condição nenhuma.
Eram os retirantes. Nada mais.
ALMEIDA, J. A. A bagaceira. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1978
Os recursos composicionais que inserem a obra no
chamado “Romance de 30” da literatura brasileira
manifestam-se aqui no(a)