ENEM - 2022 - INEP

N° de questões: 179

11

INF496

Português
   Ora, sempre que surge uma nova técnica, ela quer demonstrar que revogará as regras e coerções que presidiram o nascimento de todas as outras invenções do passado. Ela se pretende orgulhosa e única. Como se a nova técnica carreasse com ela, automaticamente, para seus novos usuários, uma propensão natural a fazer economia de qualquer aprendizagem. Como se ela se preparasse para varrer tudo que a precedeu, ao mesmo tempo transformando em analfabetos todos os que ousassem repeli-la.
   Fui testemunha dessa mudança ao longo de toda a minha vida. Ao passo que, na realidade, é o contrário que acontece. Cada nova técnica exige uma longa iniciação numa nova linguagem, ainda mais longa na medida em que nosso espírito é formatado pela utilização das linguagens que precederam o nascimento da recém-chegada.

ECO, U.; CARRIÈRE, J.-C. Não contem com o fim do livro. Rio de Janeiro: Record, 2010 (adaptado)

O texto revela que, quando a sociedade promove o desenvolvimento de uma nova técnica, o que mais impacta seus usuários é a
dificuldade na apropriação da nova linguagem.
valorização da utilização da nova tecnologia.
recorrência das mudanças tecnológicas.
suplantação imediata dos conhecimentos prévios.
rapidez no aprendizado do manuseio das novas invenções.

12

INF497

Português
Papos
                                 — Me disseram...
                                 — Disseram-me.
                                 — Hein?
                                 — O correto é “disseram-me”. Não “me disseram”.
                                — Eu falo como quero. E te digo mais... Ou é “digo-te”?
                                — O quê?
                                — Digo-te que você...
                                — O “te” e o “você” não combinam.
                                — Lhe digo?
                                — Também não. O que você ia me dizer?
                                — Que você está sendo grosseiro, pedante e
                                chato. [...]
                                — Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me.
                                Falo como bem entender. Mais uma correção e eu...
                                — O quê?
                                — O mato.
                                — Que mato?
                                — Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Matar-lhe-ei-te.
                                Ouviu bem? Pois esqueça-o e para-te. Pronome
                                no lugar certo é elitismo!
                                — Se você prefere falar errado...
                                — Falo como todo mundo fala. O importante é me
                                entenderem. Ou entenderem-me?

VERISSIMO. L.F. Comédias para se ler na escola Rio de Janeiro: Objetiva. 2001 (adaptado)

Nesse texto, o uso da norma-padrão defendido por um dos personagens torna-se inadequado em razão do(a)
falta de compreensão causada pelo choque entre gerações.
contexto de comunicação em que a conversa se dá.
grau de polidez distinto entre os interlocutores
diferença de escolaridade entre os falantes.
nível social dos participantes da situação.

13

INF498

Português
     São vários os fatores, internos e externos, que influenciam os hábitos das pessoas no acesso à internet, assim como nas práticas culturais realizadas na rede. A utilização das tecnologias de informação e comunicação está diretamente relacionada aos aspectos como: conhecimento de seu uso, acesso à linguagem letrada, nível de instrução, escolaridade, letramento digital etc. Os que detêm tais recursos (os mais escolarizados) são os que mais acessam a rede e também os que possuem maior índice de acumulatividade das práticas. A análise dos dados nos possibilita dizer que a falta de acesso à rede repete as mesmas adversidades e exclusões já verificadas na sociedade brasileira no que se refere a analfabetos, menos escolarizados, negros, população indígena e desempregados. Isso significa dizer que a internet, se não produz diretamente a exclusão, certamente a reproduz, tendo em vista que os que mais a acessam são justamente os mais jovens, escolarizados, remunerados, trabalhadores qualificados, homens e brancos.

SILVA, F. A. B.; ZIVIANE, P.; GHEZZI, D. R. As tecnologias digitais e seus usos.
Brasília; Rio de Janeiro: Ipea, 2019 (adaptado).

Ao analisarem a correlação entre os hábitos e o perfil socioeconômico dos usuários da internet no Brasil, os pesquisadores
apontam o desenvolvimento econômico como solução para ampliar o uso da rede.
questionam a crença de que o acesso à informação é igualitário e democrático. 
afirmam que o uso comercial da rede é a causa da exclusão de minorias.
refutam o vínculo entre níveis de escolaridade e dificuldade de acesso.
condicionam a expansão da rede à elaboração de políticas inclusivas.

14

INF499

Português
TEXTO I
     A língua não é uma nomenclatura, que se apõe a uma realidade pré-categorizada, ela é que classifica a realidade. No léxico, percebe-se, de maneira mais imediata, o fato de que a língua condensa as experiências de um dado povo.
FIORIN, J. L. Língua, modernidade e tradição. Diversitas, n. 2, mar.-set. 2014.

TEXTO II
     As expressões coloquiais ainda estão impregnadas de discriminação contra os negros. Basta recordar algumas delas, como passar um “dia negro”, ter um “lado negro”, ser a “ovelha negra” da família ou praticar “magia negra”.
Disponível em: https://brasil.elpais.com. Acesso em:22 maio 2018.

O Texto II exemplifica o que se afirma no Texto I, na medida em que defende a ideia de que as escolhas lexicais são resultantes de um
expediente próprio do sistema linguístico que nos apresenta diferentes possibilidades para traduzir estados de coisas.
ato inventivo de nomear novas realidades que surgem diante de uma comunidade de falantes de uma língua. 
mecanismo de apropriação de formas linguísticas que estão no acervo da formação do idioma nacional.
processo de incorporação de preconceitos que são recorrentes na história de uma sociedade.
recurso de expressão marcado pela objetividade que se requer na comunicação diária.

15

INF500

Português



Disponível em: www.facebook.com/senadofederal. Acesso em: 9 dez. 2017.

Considerando-se a função social dos posts, essa imagem evidencia a apropriação de outro gênero com o objetivo de

promover o uso adequado de campanhas publicitárias do governo.
divulgar o projeto sobre transparência da administração pública.
responsabilizar o cidadão pelo controle dos gastos públicos.
delegar a gestão de projetos de lei ao contribuinte.
assegurar a fiscalização dos gastos públicos.

16

INF501

Português
     Ela era linda. Gostava de dançar, fazia teatro em São Paulo e sonhava ser atriz em Hollywood. Tinha 13 anos quando ganhou uma câmera de vídeo — e uma irmã. As duas se tornaram suas companheiras de experimentações. Adolescente, Elena vivia a criar filminhos e se empenhava em dirigir a pequena Petra nas cenas que inventava. Era exigente com a irmã. E acreditava no potencial da menina para satisfazer seus arroubos de diretora precoce. Por cinco anos, integrou algumas das melhores companhias paulistanas de teatro e participou de preleções para filmes e trabalhos na TV. Nunca foi chamada. No início de 1990, Elena tinha 20 anos quando se mudou para Nova York para cursar artes cênicas e batalhar uma chance no mercado americano. Deslocada, ansiosa, frustrada após alguns testes de elenco malsucedidos, decepcionada com a ausência de reconhecimento e vitimada por uma depressão que se agravava com a falta de perspectivas, Elena pôs fim à vida no segundo semestre. Petra tinha 7 anos. Vinte anos depois, é ela, a irmã caçula, que volta a Nova York para percorrer os últimos passos da irmã, vasculhar seus arquivos e transformar suas memórias em imagem e poesia.
     Elena é um filme sobre a irmã que parte e sobre a irmã que fica. É um filme sobre a busca, a perda, a saudade, mas também sobre o encontro, o legado, a memória. Um filme sobre a Elena de Petra e sobre a Petra de Elena, sobre o que ficou de uma na outra e, essencialmente, um filme sobre a delicadeza.

VANUCHI, C. Época, 19 out. 2012 (adaptado).

O texto é exemplar de um gênero discursivo que cumpre a função social de
narrar, por meio de imagem e poesia, cenas da vida das irmãs Petra e Elena.
descrever, por meio das memórias de Petra, a separação de duas irmãs.
sintetizar, por meio das principais cenas do filme, a história de Elena.
lançar, por meio da história de vida do autor, um filme autobiográfico.
avaliar, por meio de análise crítica, o filme em referência.

17

INF502

Português
PALAVRA – As gramáticas classificam as palavras em substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, conjunção, pronome, numeral, artigo e preposição. Os poetas classificam as palavras pela alma porque gostam de brincar com elas, e para brincar com elas é preciso ter intimidade primeiro. É a alma da palavra que define, explica, ofende ou elogia, se coloca entre o significante e o significado para dizer o que quer, dar sentimento às coisas, fazer sentido. A palavra nuvem chove. A palavra triste chora. A palavra sono dorme. A palavra tempo passa. A palavra fogo queima. A palavra faca corta. A palavra carro corre. A palavra “palavra” diz. O que quer. 
E nunca desdiz depois. As palavras têm corpo e alma, mas são diferentes das pessoas em vários pontos. As palavras dizem o que querem, está dito, e pronto.

FALCÃO, A. Pequeno dicionário de palavras ao vento. São Paulo: Salamandra, 2013 (adaptado).
 
Esse texto, que simula um verbete para a palavra “palavra’’, constitui-se como um poema porque
tematiza o fazer poético, como em “Os poetas classificam as palavras pela alma”.
utiliza o recurso expressivo da metáfora, como em “As palavras têm corpo e alma”.
valoriza a gramática da língua, como em “substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, conjunção”.
estabelece comparações, como em “As palavras têm corpo e alma, mas são diferentes das pessoas”.
apresenta informações pertinentes acerca do conceito de “palavra”, como em “As gramáticas classificam as palavras”.

18

INF503

Português
     Morte lenta ao luso infame que inventou a calçada portuguesa. Maldito D. Manuel I e sua corja de tenentes Eusébios. Quadrados de pedregulho irregular socados à mão. À mão! É claro que ia soltar, ninguém reparou que ia soltar? Branco, preto, branco, preto, as ondas do mar de Copacabana. De que me servem as ondas do mar de Copacabana? Me deem chão liso, sem protuberâncias calcárias. Mosaico estúpido. Mania de mosaico. Joga concreto em cima e aplaina. Buraco, cratera, pedra solta, bueiro-bomba. Depois dos setenta, a vida se transforma numa interminável corrida de obstáculos. A queda é a maior ameaça para o idoso. “Idoso”, palavra odienta. Pior, só “terceira idade”. A queda separa a velhice da senilidade extrema. O tombo destrói a cadeia que liga a cabeça aos pés. Adeus, corpo. Em casa, vou de corrimão em corrimão, tateio móveis e paredes, e tomo banho sentado. Da poltrona para a janela, da janela para a cama, da cama para a poltrona, da poltrona para a janela. Olha aí, outra vez, a pedrinha traiçoeira atrás de me pegar. Um dia eu caio, hoje não.

TORRES, F. Fim. São Paulo: Cia. das Letras, 2013.

O recurso que caracteriza a organização estrutural desse texto é o(a)
justaposição de sequências verbais e nominais.
mudança de eventos resultante do jogo temporal.
uso de adjetivos qualificativos na descrição do cenário.
encadeamento semântico pelo uso de substantivos sinônimos.
inter-relação entre orações por elementos linguísticos lógicos.

19

INF504

Português
     Pisoteamento, arrastão, empurra-empurra, agressões, vandalismo e até furto a um torcedor que estava caído no asfalto após ser atropelado nas imediações do estádio do Maracanã. As cenas de selvageria tiveram como estopim a invasão de milhares de torcedores sem ingresso, que furaram o bloqueio policial e transformaram o estádio em terra de ninguém. Um reflexo não só do quadro de insegurança que assola o Rio de Janeiro, mas também de como a violência social se embrenha pelo esporte mais popular do país. Em 2017, foram registrados 104 episódios de violência no futebol brasileiro, que resultaram em 11 mortes de torcedores. Desde 1995, quando 101 torcedores ficaram feridos e um morreu durante uma batalha campal no estádio do Pacaembu, autoridades têm focado as ações de enfrentamento à violência no futebol em grupos uniformizados, alguns proibidos de frequentar estádios. Porém, a postura meramente repressiva contra torcidas organizadas é ineficaz em uma sociedade que registra mais de 61 000 homicídios por ano. “É impossível dissociar a escalada de violência no futebol do panorama de desordem pública, social, econômica e política vivida pelo país”, de acordo com um doutor em sociologia do esporte.

  Disponível em: https://brasil.elpais.com. Acesso em: 22 jun. 2019 (adaptado).

Nesse texto, a violência no futebol está caracterizada como um(a)
problema social localizado numa região do país.
desafio para as torcidas organizadas dos clubes.
reflexo da precariedade da organização social no país.
inadequação de espaço nos estádios para receber o público.
consequência da insatisfação dos clubes com a organização dos jogos.

20

INF505

Português
Seis em cada dez pessoas com 15 anos ou mais não praticam esporte ou atividade física. São mais de 100 milhões de sedentários. Esses são dados do estudo Práticas de esporte e atividade física, da Pnad 2015, realizado pelo IBGE. A falta de tempo e de interesse são os principais motivos apontados para o sedentarismo. Paralelamente, 73,3% das pessoas de 15 anos ou mais afirmaram que o poder público deveria investir em esporte ou atividades físicas. Observou-se uma relação direta entre escolaridade e renda na realização de esportes ou atividades físicas. Enquanto 17,3% das pessoas que não tinham instrução realizavam diversas práticas corporais, esse percentual chegava a 56,7% das pessoas com superior completo. Entre as pessoas que têm práticas de esporte e atividade física regulares, o percentual de praticantes ia de 31,1%, na classe sem rendimento, a 65,2%, na classe de cinco salários mínimos ou mais. A falta de tempo foi mais declarada pela população adulta, com destaque entre as pessoas de 25 a 39 anos. Entre os adolescentes de 15 a 17 anos, o principal motivo foi não gostarem ou não quererem. Já o principal motivo para praticar esporte, declarado por 11,2 milhões de pessoas, foi relaxar ou se divertir, seguido de melhorar a qualidade de vida ou o bem-estar. A falta de instalação esportiva acessível ou nas proximidades foi um motivo pouco citado, demonstrando que a não prática estaria menos associada à infraestrutura disponível.

Disponível em: www.esporte.gov.br. Acesso em: 9 ago. 2017 (adaptado).   

Com base na pesquisa e em uma visão ampliada de saúde, para a prática regular de exercícios ter influência significativa na saúde dos brasileiros, é necessário o desenvolvimento de estratégias que
promovam a melhoria da aptidão física da população, dedicando-se mais tempo aos esportes.
combatam o sedentarismo presente em parcela significativa da população no território nacional.
facilitem a adoção da prática de exercícios, com ações relacionadas à educação e à distribuição de renda.
auxiliem na construção de mais instalações esportivas e espaços adequados para a prática de atividades físicas e esportes.
estimulem o incentivo fiscal para a iniciativa privada destinar verbas aos programas nacionais de promoção da saúde pelo esporte.