Morte lenta ao luso infame que inventou a calçada
portuguesa. Maldito D. Manuel I e sua corja de tenentes
Eusébios. Quadrados de pedregulho irregular socados à
mão. À mão! É claro que ia soltar, ninguém reparou que
ia soltar? Branco, preto, branco, preto, as ondas do mar
de Copacabana. De que me servem as ondas do mar de
Copacabana? Me deem chão liso, sem protuberâncias
calcárias. Mosaico estúpido. Mania de mosaico. Joga
concreto em cima e aplaina. Buraco, cratera, pedra
solta, bueiro-bomba. Depois dos setenta, a vida se
transforma numa interminável corrida de obstáculos.
A queda é a maior ameaça para o idoso. “Idoso”, palavra
odienta. Pior, só “terceira idade”. A queda separa a
velhice da senilidade extrema. O tombo destrói a cadeia
que liga a cabeça aos pés. Adeus, corpo. Em casa, vou
de corrimão em corrimão, tateio móveis e paredes, e
tomo banho sentado. Da poltrona para a janela, da janela
para a cama, da cama para a poltrona, da poltrona para
a janela. Olha aí, outra vez, a pedrinha traiçoeira atrás de
me pegar. Um dia eu caio, hoje não.
TORRES, F. Fim. São Paulo: Cia. das Letras, 2013.
O recurso que caracteriza a organização estrutural desse
texto é o(a)