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INF854

Português

A volta do marido pródigo

        — Bom dia, seu Marrinha! Como passou de ontem?
        — Bem. Já sabe, não é? Só ganha meio dia. [...]
        Lá além, Generoso cotuca Tercino:
        — [...] Vai em festa, dorme que-horas, e, quando chega, ainda é todo enfeitado e salamistrão!...
        — Que é que hei de fazer, seu Marrinha... Amanheci com uma nevralgia... Fiquei com cisma de apanhar friagem...
        — Hum...
        — Mas o senhor vai ver como eu toco o meu serviço e ainda faço este povo trabalhar...
        [...]
     Pintão suou para desprender um pedrouço, e teve de pular para trás, para que a laje lhe não esmagasse um pé. Pragueja:
        — Quem não tem brio engorda!
        — É... Esse sujeito só é isso, e mais isso... — opina Sidu.
       — Também, tudo p’ra ele sai bom, e no fim dá certo... — diz Correia, suspirando e retomando o enxadão. — “P’ra uns, as vacas morrem ... p’ra outros até boi pega a parir...”.
        Seu Marra já concordou:
      — Está bem, seu Laio, por hoje, como foi por doença, eu aponto o dia todo. Que é a última vez!... E agora, deixa de conversa fiada e vai pegando a ferramenta!

ROSA, J. G. Sagarana. Rio de Janeiro: José Olympio, 1967.

Esse texto tem importância singular como patrimônio linguístico para a preservação da cultura nacional devido
à menção a enfermidades que indicam falta de cuidado pessoal.
à referência a profissões já extintas que caracterizam a vida no campo.
aos nomes de personagens que acentuam aspectos de sua personalidade. 
ao emprego de ditados populares que resgatam memórias e saberes coletivos. 
às descrições de costumes regionais que desmistificam crenças e superstições.